Ninguém percebe no primeiro dia.
Primeiro é o travesseiro. Depois é o ralo do banho, que você limpa rápido antes que alguém veja. Depois é a mão passando na cabeça e voltando com fio nela.
Aí um dia você abre uma foto de três anos atrás e entende o tamanho da coisa.
E ninguém te avisou que ia doer desse jeito.
Porque não é sobre cabelo. Nunca foi.
É escolher a mesa do restaurante pensando na luz do teto.
É o boné que entrou no carro por causa do sol e nunca mais saiu.
É recusar a foto do time no trabalho com uma desculpa boa e ir lavar a mão.
É rir da piada do amigo no churrasco e ficar remoendo ela dois dias depois.
É falar mais baixo. É demorar mais pra puxar assunto com alguém que te interessa.
É passar a mão na cabeça sem pensar, doze vezes por dia, conferindo.
Isso tem nome.
Chama autoestima, e a sua está sendo corroída um fio por vez.
E o pior é que você já tentou. Comprou o frasco de nome científico.
Tomou a vitamina que prometia o mundo.
Viu o vídeo do médico duvidoso às duas da manhã.
Gastou dinheiro que você tem vergonha de somar.
Nada disso te devolveu nada, e você parou de tentar.
Não porque aceitou. Porque cansou de ser enganado.
Cuidar do cabelo não é vaidade.
É recusar a ideia de que você tem que
assistir isso acontecer sem fazer nada.